Velhice: o espelho que assusta



      

     Oculto moderno da eterna juventude torna a velhice uma coisa difícil pra todo mundo. Mas entre os homossexuais há um verdadeiro pânico em envelhecer, por medo da solidão e de não se sentir mais desejado. Sei do que falo.

     Tenho 56 anos, e durante muito tempo me comportei com a falsa naturalidade de quem não sente o tempo passar. Comecei a sentir que estava envelhecendo quando, no meio homossexual, percebi que os olhares se desviavam de mim ou manifestavam franco desprezo e até mesmo escárnio. Eram pequenas agressões por meio de risinhos, piadinhas.
Um dia, numa transa, um rapaz me disse, enquanto gozava: ?Êta, véio gostoso!?
Bom, na época eu não tinha nem 45 anos, e achei até divertido. Mas senti minha velhice decretada antes do que eu poderia supor. Não foi uma constatação fácil, pois isso não estava elaborado na minha cabeça.
Rolou muita água debaixo da ponte. Terapias, rejeições, novas constatações. Acabei descobrindo uma ala de homossexuais que curte muito os senhores. E, pressionados pelo meio, sofrem como se precisassem assumir-se outra vez.

     Lembro de um amigo, amante dos senhores, ser admoestado por um ex-caso: Pare de ir atrás dessa velharada, isso é coisa de neurótico?. Não por acaso, rapazes que gostam de senhores freqüentemente sentem vergonha e escondem seu desejo até de si mesmos. Em todo caso, foi bom perceber que o olhar do desejo pode passar por outros parâmetros além da juventude musculosa vendida a bom preço pela Globo e por Hollywood. Mas nunca me acostumei com as agressões, conscientes ou não.

     Outro dia fui ao Allegro com meu jovem namorado, para mostrar-lhe os bares de São Paulo. Na entrada, um rapaz entregou flyers para ele, não pra mim — isso já acontecera inúmeras vezes antes, pois, como se supõe que ali não é lugar pra velho, eu fico invisível. Na mesa onde nos sentamos, fiquei de costas para o salão. No meio da conversa, meu namorado me contou que, numa mesa com cinco pessoas diante de nós, um rapaz paquerava-o insistentemente, até o ponto de mudar de lugar para ficar bem defronte dele. O descaramento da biba era tanto, que meu namorado estava quase chocado. Expliquei-lhe o subtexto: para um cara desses, é fácil roubar meu namorado, que no seu entender só está com uma bicha velha por causa das vantagens monetárias recebidas.

     Antes de sairmos, meu namorado me deu um beijo na boca. Só lá fora ele me contou de um incidente: quando me beijou, a mesa inteira do rapaz que o paquerava desabou numa sonora gargalhada. Claro, para eles era ridículo uma bicha velha estar ainda em ação. E haja prepotência...

     O que mais me choca nesses casos é que os homossexuais estão exercendo entre si os mesmos preconceitos que os homofóbicos têm contra os gueis. Basta pegar um anúncio guei qualquer e você verá quem as bibas mais desprezam: desmunhecados, gordos e velhos. A crueldade aí implícita me assusta.

     Nós, homossexuais, somos massacrados nas famílias, nas escolas, nas igrejas e no trabalho. E massacramos quem julgamos inferior a nós.

     Ninguém é obrigado a gostar de senhores. Mas nem por isso se pode decretar uma uniformização do desejo, tomando o padrão da Rede Globo como universal. Se alguém gosta de gordo peludo ou de rapazes delicados ou de senhores de mais de 60 anos, por que nos sentiríamos agredidos?

     Se lutamos por um mundo mais justo, onde homossexuais possam andar de mãos dadas sem serem hostilizados, isso significa que devemos buscar entre nós a diversidade construída sobre o respeito.

     Quem não consegue mirar-se na velhice dos outros, prepare-se: vai sofrer muito para enfrentar sua própria velhice.