Os que traem...
  João Silvério Trevisan


 

 

Há uma piada que corre na cena homossexual. O que uma lésbica leva para o segundo encontro? Resposta: o caminhão de mudança. O que um gay leva para o segundo encontro? Resposta: não tem segundo encontro. Minhas amigas lésbicas dizem que a piada é perfeita, do seu lado. Eu, com meus tantos anos de janela, não conheço melhor retrato da infidelidade afetiva de homens homossexuais.

Quantos de nós não poderiam repetir histórias de canos em encontros marcados? Ou de mentiras infames dentro e fora do casamento gay? Senão, por que existem tantos gays comprometidos buscando parceiros na Internet? Tive um namorado por cinco anos. De saída, concordamos que não seríamos sexualmente exclusivos um do outro. E que não esconderíamos um do outro nossas eventuais aventuras. Isso
só aumentava nosso amor, confiança e tesão mútuo. Tudo bem, até que um dia, enquanto eu estava fora da cidade, ele desmontou a casa e foi embora com outro. No meio de uma relação aparentemente maravilhosa.


Não deixou sequer um bilhete de adeus. Tempos depois, descobri que ele trepava escondido com meu melhor amigo, enquanto me namorava. Recentemente saí de outra refrega. Pra variar, sem explicações convincentes. Depois de uma curta, mas intensa relação amorosa, de mútuas declarações de amor eterno e até projetos em comum para o futuro, meu namorado caiu fora, da noite para o dia.
Explicou que não se recuperara de uma relação anterior e se sentia inseguro para entrar noutra. Queria dar um tempo sozinho, pois pretendia mudar de vida, inclusive sexual. Para tanto, estava iniciando uma terapia. Contou-me isso com o ar compungido de mártir.


As expectativas afetivas não cumpridas me levaram a um tratamento com antidepressivos. Meses depois, eu soube que o rapaz não estava bem de saúde: ia fazer uma operação urgente de hemorróidas e de remoção de condilomas venéreos no ânus. Compadecido, levei-o a um médico. Mas me perguntava: como se pega condiloma anal em época de sexo seguro? Ouvi sua explicação de que transara apenas "alegoricamente", numa sauna, sem penetração. Mas, com
certeza, não foi culpa do Espírito Santo. Descobri isso, pouco depois, ao
encontrar, na Internet, uma foto desse ex-namorado transando seminu com outro cara, numa orgia de fist fucking. Agora eu entendia como ele tinha estropiado o cu...


Fiquei chocado com o cinismo: inventar mentiras para abandonar, sem mais, uma relação de compromisso tomado a dois. Como ele, todos os dias, homossexuais traidores engrossam a multidão de assassinos de amores, deixando rastros de desconfiança, desencanto e perda de fé no amor. Por que gays traem-se tanto uns aos outros? Será que homossexual só serve pra trepar? Não faço essas perguntas por ressentimento, mas por perplexidade. A idéia da traição me
parece um dos corolários do amor romântico que a indústria cultural veicula: trair é tão banal quanto apaixonar-se. Mas a traição a que me refiro ultrapassa a mera questão de ser monogâmico ou não. Refiro-me a uma fidelidade ampla: ser capaz de assumir compromissos afetivos. Acho que, culturalmente, machos humanos costumam derramar esperma em qualquer canto.

Mas também é verdade que, entre homossexuais, a infidelidade tem a ver com a baixa auto-estima. Pessoas que não se respeitam a si mesmas, não costumam respeitar suas relações. Haverá outras explicações plausíveis. Mas vejo aí um paradoxo: por que então, ao mesmo tempo, 90% dos homossexuais masculinos reclamam da solidão e procuram obsessivamente o príncipe encantado? Se você souber a resposta, mande um e-mail me explicando isso que me dá pesadelos.