Moço de Família!



      

    Enschede é uma cidade de 150 mil habitantes no leste da Holanda, perto da fronteira com a Alemanha, com casas lindas, jardins floridos, campos verdes, gente bonita, alegre e simpática e... uma parada gay com 17 mil participantes! OK, alguns podem estar dizendo agora “isso não é nada, a parada de São Paulo teve quase dois milhões!”. Eu sei, mas estamos falando de um Gay Pride em uma cidade de 150 mil habitantes e desta vez não era uma parada gay qualquer. Se tratava do Roze Zaterdag (Sábado Rosa), o primeiro Gay Pride da temporada. Admito que, apesar de curioso, fiquei meio desconfiado. Será que não iria desperdiçar meu final de semana fazendo um programa de índio? Afinal seriam duas horas de trem da Haia até Enschede então isso teria que ser pelo menos interessante.

    Depois de alguma conversa do tipo “vale-ou-não-vale-à-pena” lá fomos nós, eu, marido e o nosso mais novo amigo, que faz um doutorado aqui na Holanda (...ele está solteiro!). O resultado de tudo isso foi uma grande surpresa. A parada em si não teve nada de revolucionário, embora o grupo de punks gays tenha sido novidade, pelo menos para mim. O carro de abertura com um canhão de verdade estava legal, as drags estavam divertidíssimas, o carro com os go-go boys e atores da produtora tcheca Bel Ami estava... deslumbrante! Gente com cara saudável, bochechas rosadas, cara de “moço de boa família”. O show com uma cover da Cher também estava muito legal, muito bem produzido. Passado o “impacto inicial” comecei a observar outras coisas interessantes.

    Primeiro a cidade em si que é bem agradável e que estava praticamente coberta de rosa. Depois comecei a ver nos prédios no percurso da parada a quantidade de famílias com crianças, pais, mães, avôs e avós, todos nas varandas, com balões cor-de-rosa e bandeiras do arco-íris, alguns até mesmo vestidos em rosa. Nas ruas também era surpreendente ver que praticamente todas as lojas tinham a fachada coberta de rosa, ou pelo menos com vários detalhes. Outra novidade foi ver que entre os participantes da parada, havia paquera e alguns beijos mas não havia ninguém sem roupa ou com comportamento sexualizado e foi aí que eu entendi tudo! Aquela era uma parada gay “de família”!!! A cenas “menos familiares” devem ter acontecido em alguma das boates e bares onde rolaram várias festas naquela noite, mas só viu quem estava lá. E quem foi até lá sabia do que se tratava, concordou em ver ou participar (a propósito, eu não vi).

    Me veio na cabeça uma série de artigos que li nos últimos meses em revistas e jornais europeus sobre a validade de uma parada gay e também sobre a parada em São Paulo, que ainda está sendo super comentada.
    Na Têtu (revista gay francesa) de junho havia um artigo interessante sobre o assunto onde a grande maioria dos entrevistados se dizia favorável à parada gay em si mas quase todos se manifestaram contra o comportamento de alguns participantes. Houve até uma que disse ser contrária ao “lado carnaval brasileiro, com extravagância e nudez” do Gay Pride. Fiquei meio desconcertado com esta associação mas não pude discordar.

    Em outras publicações e também na internet vi os mais diversos comentários sobre a parada GLBT em São Paulo, com centenas de fotos e no meio destas eis que me surge uma bunda enorme em cima de um trio elétrico. Depois de muito pensar nisso (no assunto, não na bunda) cheguei à conclusão de a pergunta a ser colocada não é se isso é certo ou errado, mas sim se é preciso. Ouvi e li relatos sobre cenas de sexo oral na Avenida Paulista e pegação pra lá de explícita.
    Não posso dizer se são verdadeiros ou não, já que não estive lá, mas pelas fotos que vi acredito que algo do tipo tenha acontecido. Como já disse, a questão principal não é se isso é considerado certo ou errado. Cada um tem o direito de fazer o que bem entende, mas este tipo de comportamento é realmente necessário? Será que este tipo de atitude de alguma forma a causa homossexual? Afinal de contas é isso que é ser gay?

    Nesse ponto concordo com os franceses. Se o ponto é exigir respeito então devemos também adotar nas nossas atitudes quotidianas o mesmo respeito que estamos exigindo. Alguns podem até argumentar que este tipo de comportamento decorre do fato de que a sociedade não respeita os gays, mas então tudo se resumiria ao revanchismo puro, sem conversa, sem choro nem vela? Acho que não é por aí. Pode até ser que eu esteja encaretando. Será possível que isso vai acontecer comigo logo agora, depois de ter mudado para a Holanda? Também acho que não. Queria ver qual seria a reação de alguns gays que pregam o direito à “pegação pública” se flagrassem, por exemplo, um casal hétero dando uma rapidinha nas escadas do seu prédio ou na porta da sua casa. Não queridos, não adianta fazer cara blasé de quem já viu tudo na vida e de que isso é a coisa mais normal do mundo. Duvido que há alguém que encare uma cena dessas sem piscar. A sociedade convencionou que sexo é uma coisa íntima, que não se faz em público. Com quem, com quantos, reino animal, vegetal ou mineral, isso é uma escolha pessoal. O que acontece é que para ser aceito pela sociedade é preciso se adequar às regras. Podem dizer que é hipocrisia mas o fato é que o mundo não é um filme pornô onde até dentro da geladeira os aspargos promovem orgias com os tomates.

    Na vida real o sexo não acontece num domingo, nas areias de Ipanema em pleno sol do meio-dia (pelo menos não que eu já tenha visto) e se acontecesse seria escandaloso, independente de ser um casal gay ou hétero. O que acontece de sexual no espaço público incomoda porque nem todo mundo que está lá tem a intenção de ver e as pessoas têm este direito! Não estou falando de beijo na boca que é só um carinho (desde que não se atraque nos dentes do outro na frente de todo mundo. É no mínimo deselegante!), estou falando daquilo na mão, na boca, aquilo naquilo, etc. Se o sexo em público realmente não incomodasse a ninguém você poderia transar com seu namorado na mesa da cozinha enquanto sua mãe prepara o almoço de domingo ou na sala enquanto seu pai vê o futebol! (experimente fazer isso e depois me conte...).

    Acho uma maravilha que no Brasil os gays tenham decidido exigir aceitação da sociedade mas não devemos esquecer que há um limite para tudo. Acho o Gay Pride o máximo e foi emocionante saber que quase dois milhões de pessoas participaram da parada GLBT em São paulo (só lamentei não estar aí, mas no próximo ano...), assim como ver os jornais da Europa publicarem que os direitos gays no Brasil estão finalmente sendo reconhecidos, mas acho também que a finalidade da parada é bem específica. Estamos lá principalmente para reivindicar direitos e aceitação. Também vamos para nos divertir, brincar, socializar e – porque não? - paquerar, mas o resto pode ficar para mais tarde entre quatro paredes.

    Os jornais holandeses deram nota dez a Enschede. Eu também. Foi uma civilizadíssima lição de tolerância e respeito. De ambas as partes. Que sirva de exemplo. Afinal, somos “moços de boa família” ou não?