Por que o "meio gay" é tão desvalorizado
pelos próprios gays?



 

Alguns pacientes costumam denominar os bares, boates e toda sorte de casas noturnas frequentadas por pessoas que sentem atração por outras do mesmo sexo de "meio gay". Esta expressão em geral vem acompanhada de predicativos muito pejorativos:" Esse meio gay é muito podre", "as pessoas no meio gay são falsas", "é impossível arrumar um namorado no meio gay" etc.

Obviamente a crítica não é dirigida à materialidade do suposto "meio", mas claro às pessoas que o freqüentam. Tanto é que muitas vezes se faz a pergunta;" você frequenta o meio gay?".

Se a resposta for "sim", o sujeito é categorizado no limbo da existência. Se torna quase um pária neste sistema de castas imaginário.

De fato, cria-se uma tal lógica repressora que acaba por identificar todos os frequentadores do suposto "meio" como pessoas falsas, vazias e promíscuas.

Ora recordo-me de um paciente que frequentava boates e festas com seus amigos 'heteros', mas confesssava ficar inibido com receio de paquerar alguém e passar por alguma situação embaraçosa. Ao voltar para casa sua sede de afeto poderia estar bastante satisfeita, mas o desejo sexual não, assim recorria a locais como saunas e sex bares para "dar uma gozada".

Um dado momento chegou a conclusão que de vez em quando seria desejável ir a uma boate gay, onde não houvesse dark room e tentar uma aproximação menos sexual, no estilo do que ocorria nas festas de seus amigos 'heteros'.

Entretanto esta idéia lhe gerava muita angústia pois era refém da lógica que explicitei acima, sendo assim frequentar tais locais faria com que ele despencasse do topo da pirâmide social, onde ele era supostamente "homem, branco, heterossexual e rico", passando a ser somente um "desprezível gay".

Ora, por que a identidade gay é tão desvalorizada?

Exatamente pelo fato de que o discurso dos próprios atores sociais reproduz o discurso sexual preconceituoso, de fato toda vez que fazemos tais críticas generalistas reinventamos a lógica da exclusão.

Mas por que alguns sujeitos são tão sensíveis a este discurso preferindo se submeter a frustração do sexo casual e abstinência amorosa à correr o risco de serem identificados como gays?

Na realidade, este discurso desqualificador só oferece uma forma, um modelo para algo que é anterior a ele, a saber, angústias primitivas ligadas à percepção da sexualidade.

Estes pacientes sempre descrevem um momento onde perceberam pela primeira vez que sentiam atração por pessoas do mesmo sexo, este período era percebido com estranho, uma vez que havia uma difusa consciência da diferença em relação ao padrão hegemônico, mas até aí tudo não passava de mais uma descoberta sexual, com uma dose natural de ansiedade. Mas seguia-se sempre uma cena onde alguém muito amado e admiradom resignificava estas experiências como "coisa de bicha, "de viado", e atribuía a este tipo de sexualidade um valor desviante e depreciativo.

Assim, a criança que só brincava de descobrir seu corpo passa a ser adjetivada pejorativamente e identificada com algum personagem desprezível socialmente. Este discurso não precisa necessariamente ser dirigido explicitamente para o sujeito, recordo-me de um paciente que costumava fazer brincadeiras sexuais com seus primos sem muita culpa, quando, um dia, ao passear com o pai, viu um mendigo feio, cheio de feridas e com um jeito muito feminino e seu pai comentou "que viado nojento!", meu paciente imediatamente perguntou o que era "viado" e seu pai retrucou: "homem safado que dá a bunda pra outro homem!"

Ora neste momento, suas práticas sexuais foram resignificadas como aquelas que, no limite, o levariam a ficar como aquele pobre homem e, sobretudo, o fariam perder o amor e admiração de seu pai, e de todos aqueles que ele tinha em alta estima.

Pessoas que sofreram este tipo de experiência guardam inconscientemente a crença de que amar uma pessoa do mesmo sexo é idêntico a ser "gay" e ser gay significa não poder ser amado por aqueles que ele de fato admira.

Um dos efeitos que considero mais belos de uma psicanálise é que em certos casos, ela pode revelar que por de trás de um discurso generalizador que supostamente retrata uma realidade social, estão experiências muito singulares e significativas.