Coisas de Casal...

    Esta semana abri minha caixa de e-mails e de repente vejo a seguinte mensagem:
    -"O pai do Carlão morreu esta madrugada. O enterro será às 16 horas."
    Um frio no estômago, um nó na garganta. Sentimento de perda.
    Valton, pai desse grande amigo, era, ou melhor, é, um grande cara. Sempre respeitou a todos. Lembro dele falando com orgulho de um grande amigo gay, quarentão. Sempre rindo nos contava das desaventuras desse cara.

    Além de lidar com situação chata da perda de alguém próximo, esse acontecimento me acordou para o fato de que, desde que assumi o meu relacionamento com o Wanderson, eu praticamente desapareci da vida desses amigos. Amigos próximos, amigos irmãos. Sempre me senti em débito por isso. Como se tivesse jogado uma bomba e saído correndo, e nem ter visto a explosão. Hoje lembrando chega ser engraçada a falta de maturidade.

    Vivíamos sempre juntos. A casa do Carlos era o ponto de encontro. Eu, Zé, Zica, Henrique, Ana Paula e Rafael, não saíamos de lá. Todos héteros. Ana, mãe do Carlos, a típica mãe de amigo, generosa,sempre cheirosa, arrumada, bem humorada, louca, uma mulher pra frente. Um travesti que deu certo, sempre nos recebia como seus filhos.
    Mas...
    De repente a minha presença já não era constante. Já estava namorando.
    Pensaram que eu estava me drogando. Engraçado. Até que um dia, na última festa-reunião que me lembro de ter ido, Ana Paula me leva pro quarto, tranca a porta e diz:
    "- Você só sai daqui quando disser o que está acontecendo!"
    Contei tudo (sempre é mais fácil se abrir para as amigas, as mulheres são mais compreensivas, acho que é essa pré-disposição ao amor materno).
    Pedi segredo. Obviamente a Ana Paula não guardou. Contou tudo, na mesma noite, pro Carlão.
    No outro dia, às 8 horas da manhã recebo a ligação do Carlos.
    "- Fica frio , que eu já sei de tudo.
    - Tudo o quê ?
    - Você sabe né Tarzan (um desses apelidos idiotas que os amigos nos colocam). A Ana me contou.
    - Vaca!
    - Estamos com você cara... Só não vai querer ser mulher...
    - Preconceituoso...
    - Nada disso, você ia ser a mulher mais medonha que já existiu.
    - Idiota.
    - Aliás já contei pro Zica.
    - Acho melhor eu andar com um cartaz fica mais fácil todo mundo ficar sabendo, né?
    - O que que você queria, perdi uma noite de sono por sua culpa, precisava me abrir com alguém... Ele mandou te dizer que só viado mesmo pra querer te pegar."

    Apesar do apoio, me afastei. A falta de maturidade era demais, eu achava que uma coisa era ser gay, outra era ser gay e ter um relacionamento com outro cara. Na verdade, é o que a sociedade quer.
    "Sejam gays, mas não se envolvam afetivamente entre si".
    "Deus não condena os homossexuais, mas sim o amor e o sexo entre os iguais".
    "Nada contra duas mulheres se beijando, desde que não seja perto de mim..."

    Paguei caro, perdi momentos legais com pessoas maravilhosas, que também não deixei participar das minhas vitórias e derrotas...
    De repente me vi consolando amigos, conversando sobre o passado, rindo da piada que escuto quando chego:
    "- Só morrendo alguém pra você aparecer, né?! Vê se não some poxa."

    Pior que o próprio preconceito, é só quando você aceita o preconceito. Então você o fortalece. Eu deveria ter aceitado o apoio, não ter me escondido. Deveria ter tido orgulho de ser gay e casado, apresentar o meu companheiro e fazer dele, amigo dos meus amigos.
    Aconteça o que acontecer, sou homossexual, isso é uma coisa que não dá pra reverter e nem quero.
    Aprendi com essa história, que o que vale é o orgulho que você tem de si. Esse orgulho vem de uma auto-aceitação, muito importante para nós, mas igualmente necessária para os outros ou a sociedade nos respeitar.
    Bom, só me resta agora correr atrás do prejuízo, não vai ser fácil...
    "Mas se fosse fácil não teria graça!".